Sobre cães e gatos

Essa bela cachorra aí ao lado adorava uma rua e, com a mesma intensidade, detestava gatos.
Na época do fato que vou contar, já tinha em seu currículo dois gatos abatidos.
Um deles, infelizmente, tive o desprazer de presenciar o momento em que ela o pegou. Quando tentei me aproximar pra ver o que podia fazer pra salvar o pobre bichano, fui recebido com um olhar e um rosnado, acompanhado do arreganhar dos dentes, que me fez recuar e, nos poucos momentos que tirei pra pensar em algo, foram o suficientes pra ela, apenas apertando com os dentes a garganta do bichano, deixar claro que nada mais havia a fazer. Nem um som, nem uma gota de sangue. É duro, mas tive que reconhecer, um serviço perfeito. Como era apenas um exercício de instintos primais, assim que se certificou do sucesso da empreitada, largou a presa e foi pro seu canto beber água.
Mas vamos para coisas mais amenas. Era um sábado à tarde ensolarado quando abri a porta lateral da casa, me preparando para sair e deixei que ela também desse uma saidinha pra parte da frente da casa a fim de olhar e trocar umas cheiradas com os cachorros da rua. Infelizmente não percebi que o portão não estava trancado, mas apenas encostado. Rapidamente, com o focinho, ela afastou a parte móvel e ganhou a liberdade. Como não era a primeira vez que isso acontecia, voltei pra dentro pra pegar a guia, sem a qual não conseguiria traze-la de volta. Saí, já armado de muita paciência, porque iria começar seu jogo predileto de deixar eu me aproximar, para então sair correndo, pois sabia das minhas intenções. E assim, fomos descendo a rua, eu esperando o momento que alguma coisa a distraísse o suficiente para me aproximar o bastante e colocar a guia. Andamos cerca de quatro quadras, até chegar ao fim da rua, quando, então, ela optou por virar à esquerda, e eu atrás, procurando não perder contato. Mais uma quadra e ela para em frente a um terreno onde existem umas quadras de futebol society, e ficou numa posição que me gelou. Exatamente aquela que antecede um ataque. Imobilidade absoluta, pelos eriçados, corpo ereto. Tentei chamar, mas já sabia que seria em vão. Toda sua atenção estava focada no alvo. De repente, o arranque pra dentro do terreno. Ai não teve outro jeito a não ser correr atrás.
Quando cheguei na frente do local, só deu tempo de ver ela correndo atrás do felino, que entrou numa casa que ficava a esquerda do zelador do empreendimento, que estava, com sua família, confortavelmente na sala, vendo o programa Raul Gil (lembro bem disso). Agora imaginem o susto deles vendo uma gato e um cão em tresloucada correria por entre os móveis da casa. Só deu pra ouvir uma cadeira da cozinha caindo e os gritos da mulher e de duas crianças. Felizmente o gato resolveu sair de volta pra fora e, atrás dele, ela e todo mundo da casa, tendo a frente o chefe que ao me ver parado, provavelmente com cara ‘de tacho’ como se diz na família, rangeu entre dentes: Se essa cachorra fizer alguma coisa pra minha gata, que está grávida, eu mato ela. Tentei ser prático e, em vez de desculpas, pedi que me ajudasse. Mas não há muito o que fazer quando esse bichos estão na correria, a não ser torcer para que a gata conseguisse um jeito de se esconder. E foi o que aconteceu quando ela entrou num cano, acho que de águas pluviais, que tinha o tamanho exato para gatos, mas não para a cachorra, que se postou no bocal e enfiou a cabeça e o pescoço, mas daí não passava.
Situações limite exigem que algum limite seja superado. A essa altura, já havia uma considerável platéia, formada pelos jogadores da quadra mais próxima se divertindo e esperando o próximo lance. Vi que eu era a bola da vez. Era preciso agir. Avancei para o local onde ocorria o tete-a-tete decidido a tira-la, já me preparando para uma eventual mordida, que nessas horas acho que ela não ia saber muito bem quem a estava afastando da sua caça. Me joguei em cima dela, puxando-a pelo peito e já berrando no seu ouvido um sonoro QUIETA. Quando vi que tinha sido reconhecido, agarrei-a bem firme, consegui colocar a guia e tira-la da frente do cano, sob aplausos de uns e vaias de outros na platéia. Parece que já se estava formando um balcãozinho de apostas sobre o final da estória.
Agora, quem dizia que a gata saia lá de dentro, coitada. Fui pedir desculpas pro cara, enquanto sua mulher e as crianças tentavam tirar a assustada gata de dentro do cano. Ele ainda vociferou que se perde-se a ninhada eu ia ter que pagar os prejuízos. Não sei quais seriam, mas de qualquer forma deixei meu telefone para que me procurassem caso tivessem alguma despesa em função do ocorrido. Como não tive retorno, até hoje, acho que tudo correu bem.
Todo esse post está no passado, porque, infelizmente, ela desapareceu a cerca de dois anos. Mais uma vez um portão descuidado e uma saída, dessa vez sem que ninguém percebesse. Só espero que, onde quer que esteja, esteja bem. Saudades, Ive.